Projeto Igarapé abre travessia para o ensino superior a estudantes indígenas de São Gabriel da Cachoeira
PROEXT/UFAM formaliza cursinho preparatório para o ENEM com metodologia intercultural, em parceria com IFAM/SGC e DEEI/FOIRN
A Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Amazonas aprovou o Projeto Igarapé: Travessias para a Universidade, um curso preparatório para o ENEM voltado a estudantes indígenas do ensino médio em São Gabriel da Cachoeira. A iniciativa formaliza e amplia experiências preexistentes conduzidas por docentes do IFAM e representa uma articulação inédita entre universidade, instituto federal e movimento indígena organizado.
A proposta aprovada foi submetida ao Ministério da Educação (MEC) em março de 2026, no âmbito do EDITAL CPOP nº 01/2026 - Rede Nacional de Cursinhos Populares. A iniciativa dá continuidade ao processo de articulação com a governança do movimento indígena e com a comunidade do Rio Negro, contribuindo para a consolidação do novo campus e para o fortalecimento de uma política educacional territorialmente referenciada e socialmente comprometida.
São Gabriel da Cachoeira concentra a maior proporção de população indígena autodeclarada do Brasil: 93,17% dos habitantes pertencem a 23 etnias diferentes. Apesar disso, apenas 5,7% dos adultos indígenas do município concluíram o ensino superior, segundo o Censo 2022. O projeto nasce para enfrentar essa contradição: o estado do Amazonas registrou crescimento de 89% nas inscrições indígenas no ENEM entre 2022 e 2025, mas esses estudantes ainda representam menos de 1% dos candidatos em nível nacional.
Novo campus da UFAM previsto para 2027
O Projeto Igarapé integra o processo de implantação do novo campus da UFAM em São Gabriel da Cachoeira. Ao qualificar estudantes indígenas para o ensino superior com pelo menos 50% de vagas reservadas a meninas e indígenas, o cursinho prepara a comunidade local para ocupar os quadros técnicos e acadêmicos da futura unidade, retendo talentos no território e fortalecendo o desenvolvimento regional a partir de dentro.
Como funciona o cursinho
O projeto organiza os cinco componentes do ENEM em um sistema de rodízio quinzenal, com média de seis encontros por área ao longo de oito meses. A carga horária totaliza 60 horas por componente curricular, realizadas de forma presencial nas instalações do IFAM Campus São Gabriel da Cachoeira.
Além das aulas regulares, o calendário prevê quatro sábados de simulados interdisciplinares completos e dois encontros de orientação psicopedagógica, dedicados à gestão de tempo, estratégias de prova e preparação emocional.
Linguagens
Português instrumental como segunda língua (L2), interpretação textual e gêneros discursivos, com foco na realidade bilíngue e multilíngue dos estudantes.
Ciências humanas
História, Geografia, Filosofia e Sociologia articuladas aos direitos territoriais, movimentos sociais e história regional do Rio Negro.
Ciências da natureza
Biologia, Física e Química integradas à etnobotânica e à sustentabilidade amazônica, usando o bioma local como objeto de estudo científico.
Matemática
Raciocínio lógico, estatística e resolução de problemas contextualizados à realidade regional.
Produção textual
Laboratório contínuo de redação dissertativo-argumentativa com repertórios que valorizam a história do Rio Negro e os direitos indígenas.
"A 'travessia' proposta pelo projeto é integral: o ingresso no ensino superior deve vir acompanhado de consciência crítica sobre pertencimento étnico-racial, território, gênero e cidadania."
Formação transversal e combate ao racismo
Paralelamente aos componentes do exame, o projeto trabalha quatro eixos transversais integrados a todas as disciplinas: interculturalidade e liderança, com debate sobre a Lei de Cotas e direitos dos povos indígenas; protagonismo feminino nas ciências e tecnologias, com oficinas voltadas a meninas indígenas e acesso ao Programa de Dignidade Menstrual; história regional e sustentabilidade amazônica; e educação antirracista, em cumprimento às Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008.
A metodologia denominada Pedagogia da Travessia organiza os conteúdos a partir de temas geradores que integram áreas do conhecimento, reduzindo a fragmentação disciplinar típica dos cursinhos tradicionais. O projeto também assume caráter bilíngue e intercultural, reconhecendo as quatro línguas cooficiais do município.
Parceiros e alcance territorial


Reunião de alinhamento entre UFAM, IFAM e DEEI/FOIRN para realização do projeto
A iniciativa é resultado de uma triangulação institucional entre a UFAM, o IFAM Campus São Gabriel da Cachoeira e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), por meio de seu Departamento de Educação Escolar Indígena (DEEI) e do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN).
Para contornar as barreiras de conectividade da região, o projeto utilizará podcasts e pílulas de áudio produzidos pela TV UFAM, distribuídos via rádio e aplicativos de mensagens. Está prevista, ainda, a parceria com a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas, o que poderá ampliar o alcance dos conteúdos educativos até as comunidades ribeirinhas, nas línguas locais.