Dia da Visibilidade Trans: a Ufam como espaço de construção social inclusivo
Por meio da extensão universitária, a Proext/Ufam busca transformar políticas em cuidado, escuta e presença institucional, promovendo ações que garantam respeito, pertencimento e condições reais de permanência para pessoas trans na universidade e nos territórios onde ela atua.
No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, a Universidade Federal do Amazonas reforça que o debate sobre gênero, diversidade e direitos não é pontual e nem recente na instituição. Ao longo dos anos, a Ufam tem estruturado e se mantém atenta à construção e fortalecimento de políticas afirmativas que atravessam o ensino, a pesquisa e a extensão, com ações contínuas voltadas à promoção da equidade e ao enfrentamento das desigualdades históricas que atingem grupos minoritários e/ou marginalizados na sociedade.
No âmbito da extensão universitária, essas ações são articuladas pela Pró-Reitoria de Extensão (Proext), que mantém a temática de gênero como eixo estratégico de suas políticas institucionais. A Proext orienta e fomenta projetos que dialogam diretamente com identidade de gênero, sexualidade, enfrentamento à violência contra mulheres, combate ao assédio moral e sexual, além da inclusão e permanência de pessoas trans no ambiente acadêmico e nos territórios atendidos pela universidade.
Essas políticas se materializam por meio de programas e projetos de extensão desenvolvidos por docentes, técnico-administrativos e estudantes, em articulação com comunidades externas, escolas, movimentos sociais e instituições públicas. As ações incluem rodas de conversa, oficinas formativas, atividades educativas, produção de materiais informativos e intervenções comunitárias que tratam gênero e direitos humanos de forma transversal, conectando a gestão universitária às demandas comunitárias e sociais na Instituição.
A vivência estudantil de pessoas trans evidencia o impacto concreto dessas políticas. Para estudantes que utilizam o nome social, o reconhecimento institucional representa segurança, respeito e a possibilidade de ocupar espaços acadêmicos sem a necessidade constante de explicação ou justificativa.
Além disso, os editais de extensão lançados regularmente pela Proext, como os do Programa Institucional de Bolsas de Extensão (Pibex) e do Programa de Apoio Curricular à Extensão (Pace), estimulam a submissão de propostas que abordem gênero e diversidade, ampliando o alcance dessas políticas e garantindo suporte institucional às iniciativas. A lógica é integrar a extensão universitária à construção de uma cultura acadêmica mais inclusiva, plural e comprometida com a transformação social.
Ao reconhecer a diversidade de identidades que compõem sua comunidade, a Ufam reafirma neste Dia da Visibilidade Trans, que políticas afirmativas são processos permanentes. No campo da extensão, elas representam não apenas ações educativas, mas um compromisso contínuo com a dignidade, o respeito e o direito à educação em condições de igualdade, dentro e fora da universidade.
Ações técnicas e igualmente sensíveis
A Pró-reitora de Extensão, Flávia Melo e a Diretora do Departamento de Políticas Afirmativas (DPA), Danielle Gonzaga, gestoras responsáveis pelas políticas afirmação, diversidade e permanência da Ufam, destacam que a Visibilidade Trans também é um momento de reafirmar compromissos históricos da universidade pública com os direitos humanos, a diversidade e a inclusão.
Segundo elas, ações como o uso do nome social, aliadas a projetos de extensão e formação, contribuem para transformar a universidade em um espaço mais plural e democrático, e destacam as ações da Proext neste sentido.
“Em 2025, a Pró-Reitoria de Extensão fomentou ações alinhadas às agendas de direitos humanos, diversidade e inclusão, com ênfase no contexto do Dia da Visibilidade Trans. Destacamos a Cartilha de Direitos LGBTQIAPN+, desenvolvida no âmbito da disciplina Corpos Marginalizados e a Violação de Direitos Humanos: contexto amazônico e brasileiro, da Faculdade de Direito. A ação integrou as atividades alusivas ao Dia da Visibilidade Trans e culminou no lançamento da cartilha no “1º Ciclo pelo Orgulho e pela Diversidade no Poder Judiciário do Amazonas, destacou a Pró-reitora da Proext”.
E seguiu, ressaltando a implantação do PROMEMO e enumerando as ações desenvolvidas também nas unidades acadêmicas do interior.
“Criamos, ainda, o PROMEMO-AF, programa voltado à indução da inclusão de pessoas trans em ações de extensão. Além disso, apoiamos iniciativas como o PAREC ‘Violência nas relações homossexuais: diálogos com a Associação de Gays, Lésbicas e Travestis na Tríplice Fronteira’, no INC Benjamin Constant, e o PIBEX ‘A força no seu lado colorido’, desenvolvido no IEAA, em Humaitá/AM, com foco na valorização da diversidade e no enfrentamento à discriminação”.
E concluiu, ressaltando que:
“Essas ações, ainda que pontuais, evidenciam a preocupação institucional com o respeito e a inclusão da diversidade. Em 2026 queremos garantir organicidade às ações como essas e apoiar a difusão dos direitos das pessoas trans na universidade, como o respeito ao uso do nome social”, finalizou.
Na linha de frente do planejamento e operacionalidade dessas ações está a professora Danielle Gonzaga, Diretora do DPA/Proext. Ela ressalta que datas como esta não podem passar despercebidas, porque é um momento importante para a universidade reforçar, uma vez mais, seu protagonismo ao lado das minorias diante da luta constante por direitos e respeito.
Ao longo do ano, diferentes datas de luta e resistência precisam ganhar visibilidade e notoriedade nos espaços de comunicação da Ufam porque a comunidade universitária é constituída por diferentes e múltiplos corpos. Ecoar o Dia Nacional da Visibilidade Trans na Ufam é a afirmação de compromisso com uma universidade de muitas cores e muitos rostos, na possibilidade de outros caminhos para a diversidade acadêmica, ponderou a Diretora.
A Pró-Reitoria de Extensão da Ufam não atua apenas no financiamento de projetos, mas na articulação de ações que promovem direitos, enfrentam desigualdades e estimulam transformações sociais, inclusive nas questões de gênero e diversidade. Na página institucional de Diversidade e Inclusão da Proext, estão definidos eixos prioritários para as ações extensionistas. Entre eles, quatro se relacionam diretamente às temáticas de gênero e identidades: enfrentamento à violência contra mulheres, inclusão e permanência de pessoas trans, combate ao racismo e enfrentamento ao assédio moral e sexual.
Dentro dessa estrutura, projetos financiados pela Proext podem abarcar atividades educativas, sociais e comunitárias que tratem gênero, sexualidade, direitos e convivência plural, como oficinas, rodas de conversa, formações, produção de materiais e ações junto a escolas, organizações comunitárias e territórios. Embora não exista uma lista específica de “projetos de gênero”, a orientação política da extensão coloca a inclusão e permanência de pessoas trans como um dos eixos centrais, o que abre espaço para propostas nessa área.
Perspectivas acadêmicas
Para o acadêmico de Design da Universidade Federal do Amazonas, Kai Saenz, estudante do 8º período, o processo de reconhecimento como pessoa trans ocorreu de forma gradual e, inicialmente, solitária. Ele relata que, antes do ensino médio, vivia em um ambiente escolar sem referências de diversidade de gênero e sexualidade. “Foi tudo muito no escuro no começo. Eu estava passando por aquilo sozinho”, afirmou.
A mudança ocorreu no ensino médio, quando o contato com outras vivências possibilitou acolhimento e identificação. “Conheci pessoas que me acolheram e me apresentaram muitas coisas. Isso fez diferença”, disse.
Durante a pandemia, segundo Kai, o isolamento contribuiu para um processo mais íntimo de autoconhecimento. “Pude estudar, pesquisar e entender a comunidade trans e LGBTQIAPN+ sem a pressão externa de julgamentos”, observou.
Na universidade, ele optou por não formalizar o uso do nome social nos sistemas institucionais após receber orientações informais de que o procedimento poderia gerar entraves administrativos. “Fui desencorajado a dar entrada no pedido. Diziam que poderia interferir em bolsas e sistemas”, explicou. Apesar disso, ele afirma que é reconhecido pelo nome social no cotidiano acadêmico. “No curso inteiro, sou conhecido como Kai”, destacou.
O Trabalho de Conclusão de Curso do estudante será voltado à produção de um manual informativo sobre os direitos da comunidade trans e LGBTQIAPN+ na Ufam. “Muitas pessoas não sabem quais são seus direitos. Isso gera insegurança e desinformação”, afirmou.
Kai também relata sua participação em espaços externos de debate sobre políticas públicas voltadas à população LGBTQIAPN+, onde presenciou episódios de transfobia. “Foi assustador perceber comentários transfóbicos e racistas em um espaço que deveria defender direitos”, disse.
Para ele, a Visibilidade Trans também expõe contradições. “Mesmo com informação, ainda há resistência. É um processo em construção”, observou. Para Ycaro Souza, acadêmico do 3º período de Design da Ufam, o processo de reconhecimento da identidade de gênero começou na adolescência, durante a pandemia. “Foi a partir do diálogo com amigos que comecei a refletir sobre quem eu era”, contou.
Criado em um ambiente religioso, Ycaro relata conflitos internos e pressões externas. “Existe uma expectativa muito rígida sobre quem você deve ser, e isso torna o processo doloroso”, afirmou.
No retorno às aulas presenciais, em um colégio particular, ele enfrentou um ambiente que descreve como opressivo. “Comentários homofóbicos e transfóbicos eram frequentes, inclusive por parte de figuras de autoridade”, disse.
Na universidade, Ycaro passou a enxergar a educação como espaço de transformação. “Ser reconhecido pelo nome e pela identidade impacta diretamente a permanência, a saúde mental e o futuro profissional”, destacou.
Segundo ele, a falta de informação sobre direitos e procedimentos institucionais ainda gera insegurança entre estudantes trans. “Informação clara e acessível faz diferença real na vida das pessoas”, afirmou.
Legislações inclusivas de gênero e identidade
A Ufam possui resoluções que formalizam políticas de inclusão com impacto direto em gênero e diversidade. A Resolução nº 008/2015-S-CONSUNI regulamenta o uso do nome social por discentes e servidores nos registros e sistemas institucionais. Link: https://www.ufam.edu.br/legislacao/consuni/resolucao-008-2015.html
A Resolução nº 030/2018-CONSUNI instituiu a Política Permanente de Equidade de Gênero da Ufam, estruturando ações de enfrentamento à violência de gênero e promoção da igualdade no ambiente acadêmico.
Link: https://www.ufam.edu.br/legislacao/consuni/resolucao-030-2018.html
A Resolução nº 020/2021-CONSUNI disciplina a atuação da Comissão Geral de Heteroidentificação e integra o arcabouço das políticas afirmativas da universidade. Link: https://www.ufam.edu.br/legislacao/consuni/resolucao-020-2021.html
Em 2024, a Ufam aprovou a revisão de seu Estatuto, em vigor desde fevereiro de 2025, ampliando a participação e a representação de diferentes segmentos da sociedade nos conselhos e colegiados da instituição.
Link: https://www.ufam.edu.br/estatuto-2024.html
No âmbito nacional, a universidade também se apoia na Lei nº 12.711/2012, a Lei de Cotas, que estabelece critérios de reserva de vagas no ensino superior.
Link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.html